O “Círculo Mágico” e os jogos de tabuleiro

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Em um podcast recente, o pessoal do Dice Tower falou um pouquinho a respeito da questão de jogos com temas de bebida alcoólicas, e a maioria dos jogos que possuem esse tipo de tema são jogos onde o vencedor será aquele que beber mais.  E por conta do perigo que esse tipo de ação pode ter na vida de uma pessoa, eles falaram um pouco de um conceito novo para mim, a questão do círculo mágico e a relação dele com os jogos que tratam da questão da bebida.

Independente da opinião sobre os jogos que tratam de bebidas, achei interessante esse conceito do círculo mágico e dei uma pesquisada então a respeito para saber do que se tratava e como isso estaria ligado aos jogos de tabuleiro.

Existe uma discussão interessante no mundo acadêmico a respeito de como os jogos (em geral) interagem com a realidade e como podem influencia-las. Recentemente ouvi a respeito de um termo utilizado para descrever esse tipo de interação, o chamado “Círculo Mágico” e resolvi pesquisar e escrever um pouco a respeito de como essa interação entre jogo e realidade acontece.

Jogar um jogo é muitas vezes descrito como entrar em um mundo alternativo, assumir o papel de um personagem e então desenvolver ações em uma outra realidade. Na verdade existe um conceito por trás da idéia do jogar, que é a teoria do “Círculo Mágico”, que foi desenvolvida por Johan Huizinga em seu trabalho “Home Ludens” em 1955 e pode ser descrita como a idéia de um espaço governado por regras especiais, criado pelos jogadores e com as regras e definições estabelecidas por eles, e assim como outros tipos de espaços, o espaço de jogar é social em sua origem, sendo assim o lugar onde o jogo acontece.

Jogar significaria então entrar no círculo mágico, ou mesmo criando um assim que o jogo começa. O círculo mágico pode ter componentes físicos como um tabuleiro, ou um campo onde uma competição de atletismo acontecerá, e as ações e eventos ali podem ter um significa especial

Esse espaço então seria um fenômeno onde os jogadores decidem jogar e por consequência consentem em entrar nesse espaço especial, social e psicológico do jogo.

Um exemplo que poderia ser usado como prova da existência do “Círculo Mágico” seria uma família jantando, todos sentados ao redor da mesa, e uma pessoa decide pegar o saleiro. Outra pessoa então resolve afastar mais o saleiro ou bloquear o acesso da pessoa que deseja pega-lo. Essa situação durante o jantar seria considerada rude e problemática. Porém se as mesmas pessoas estivessem jogando um jogo que envolvesse a captura de peças ou bloqueio da outra pessoa, essas ações não seria problemáticas por estarem dentro do contexto e conceito do jogo.

Adicione-se ainda o fato de que convenções especiais são estabelecidas dentro do círculo mágico, como o fato de que ao jogar você pode (e deve) tentar vencer às custas dos outros jogadores, o que pode levar em alguns casos de derrotas ou vitórias as consequências fora do círculo mágico, como por exemplo, casos onde o jogador decide perder uma partida para preservar um relacionamento.

Como se trata de um lugar com as fronteiras imperfeitas, seria complicado se algumas coisas do círculo mágico se transpusessem para a realidade, mas mesmo assim ainda é possível perceber uma relação (embora não seja tão fácil de mensurar o grau de importância de cada uma) entre vencer, manter o jogo interessante e gerenciar a situação social, pois alguns preferirão vencer a qualquer custo enquanto outros preferirão ter uma interação mais interessante com os outros jogadores mesmo que isso lhe custe a vitória no final.

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Por conta disso é importante perceber a existência do círculo mágico e como a negociação dos seus termos é importante entre os jogadores, além disso esses conceitos podem ser pontos interessantes no desenvolvimento de jogos e de como os temas, mecânicas, objetivos e ações do jogo podem contribuir para o desenvolvimento pessoal e social do jogador.

Será que as regras estabelecidas dentro do círculo mágico não exigem do jogador uma atitude que lhes será prejudicial em sua vida fora do círculo? Não seria interessante pensar em jogos que estimulem características e habilidades que seriam úteis fora do círculo?

Questões interessantes para pensarmos 🙂

Alguns artigos (em inglês) a respeito do assunto de onde tirei algumas idéias e exemplos que coloquei no texto acima:

http://gamingconceptz.blogspot.com.br/2012/10/huizingas-magic-circle.html

http://www.academia.edu/2595537/The_magic_circle_and_the_puzzle_piece

O podcast do Dice Tower que tratou da questão pode ser acessado aqui

 

 

 

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4 comentários sobre “O “Círculo Mágico” e os jogos de tabuleiro

  1. Parabéns pelo artigo, André! As questões que você colocou são muito boas. Entrar no círculo mágico não pode ser visto como um escapismo do mundo real, pois necessariamente vamos sair dele ao terminar o jogo. Trabalho atualmente com gamificação e boa parte do que fazemos pode ser traduzido como “estimular características e habilidades que sejam úteis fora do círculo”, fazendo justamente com que este círculo se expanda para outras áreas da vida. Se consigo encarar uma área importante da minha vida – como os estudos, por exemplo – como um grande círculo mágico no qual posso entrar com uma “atitude lúdica”, por que não fazê-lo? =)

    Curtido por 2 pessoas

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